Neve
Gritos, silêncio.
E a maldita neve.
É o que eu me lembro daquele dia.
Eu havia sido chutada de casa pela minha própria mãe. Ser descartada pela pessoa em que você mais confiou na vida, assim, desse modo, não é nada agradável. Não sei como ela pode jogar na minha cara que tinha nojo de mim, e ainda conseguir chorar. Um choro de raiva e vergonha, suponho. Ela andava estranha ultimamente - mas nunca soube, de fato, o que a levou a expulsar-me.
Caminhei horas por ruas desertas - só havia neve, por todos os lados. Eu não enxergava direito e estava perdida em pensamentos, além de sentir um frio tremendo. Não só isso, mas o coração batia devagar, como se fosse parar a qualquer momento. Uma dor insuportável dentro do peito... É essa a sensação de ser rejeitada?
Lentamente fui chegando a lugares mais movimentados. Carros passavam apressados para chegarem em seus devidos lares, ao contrário de mim, que vagava a lugar nenhum e não tinha para onde retornar. Sentei-me embaixo de uma pequena ponte, no qual a água estava congelada pelo rígido inverno, e ali me refugiei dos flocos gelados que caiam naquela tarde. Estava exausta demais para continuar. Não trazia nada comigo, apenas a roupa do corpo, um pouco de ódio, uma pitada de culpa, duas colheres de dor e três xícaras de tristeza.
Não pude saborear o meu infortúnio sozinha: ao longe, um garoto surgiu. Estava sozinho, bem agasalhado, e caminhava sem pressa. Parecia estar apenas passeando, mas se fosse este o caso, escolhera um dos dias mais frios do ano para tal. Quando me avistou, parou por um momento, e virei o rosto para o outro lado. Quando me dei por conta, ele estava ao meu lado, e me assustei com a presença dele. Reparei, então, nos olhos escuros dele. Um olhar profundo, vivo e morto ao mesmo tempo, um pouco melancólico. Era parecido com o meu.
Apresentou-se como Kai, e pelo o que pude perceber, devia ser uns quatro ou cinco anos mais velho do que eu. Fiquei ali parada, apenas encarando-o, enquanto ele tirava seu cachecól e o enrolava em volta de meu pescoço. Tirou as luvas e colocou as mãos em minhas bochechas mau-tratadas e frias. Segurou a minha mão e me puxoue, ajudando-me a levantar, e fomos até seu apartamento: um lugar pequeno, sem pai nem mãe, mas já era o suficiente. Confiei minha vida ao dono daqueles olhos escuros, que me pareceram confiáveis. Eu estava segura e livre da neve acinzentada.
Me apeguei muito ao Kai. Considero-o um tipo de irmão mais velho, já que sou uma adolescente sem mais ninguém no mundo, além dele. Minha mãe me criava sozinha e não tínhamos uma boa relação com mais ninguém da família. Agora, quando eu tinha pesadelos a noite, ia dormir junto do Kai. Quando sentia uma vontade incontrolável de chorar, ele me acolhia num abraço, e minhas lágrimas rolavam por suas costas. Essa insegurança, medo e tristeza invadiram meu coração. Os bons momentos estavam apenas na memória agora - eu havia perdido a minha inocência.
Foi o que a neve me roubou naquele dia.