Semelhança

A primeira vez que vi o Jesse foi num festival de bandas, há uns três anos atrás. Ele estava junto de uns caras, todos drogados ou bêbados. Não chegamos a nos falar naquela vez. Eu tinha por volta de catorze anos, e ele, provavelmente, treze anos.

A segunda vez em que o avistei foi durante o show de uma banda punk. Nós chegamos um para o outro. Estendi a mão, cumprimentei-o. Poucas palavras foram trocadas. O engraçado é que ali se estabeleceu uma certa confiança, mesmo que não nos conhecessemos bem. Tínhamos algo em comum.

A gente passou a se ver com muita freqüencia, íamos na casa um do outro toda semana. Ficamos bem amigos, apesar das nossas diferenças. Certa vez, combinamos de entrar num show sem pagar, e deu certo por causa dos contatos dele. Também conseguimos bebidas de graça, mesmo sendo menores de idade. Depois de um tempo, convenci-o a parar de fumar, ainda que o vício da heroína continuasse.

Mais ou menos nessa época que eu comecei a me revoltar de verdade com o meu pai. Passei a usar apenas All Star, jeans rasgados, camisetas longas e desbotadas. Ouvia só rock pesado e percebi quanta idiotice me cercava. Futilidade, mentira, falsidade. Nessa época, o meu pai quase nunca estava em casa, para a minha sorte.

Rebelado, aluguei o apartamento quando fiz dezessete anos, e o Jesse foi o primeiro a se mudar para lá. A família dele sempre esteve cheia de problemas: o pai era bêbado e desempregado, a mãe dona de casa, e o irmão mais novo era um pirralho metido a besta. Tudo isso, mais o fato de Jesse ser drogado, o tornava um tanto rude e agressivo. Acabou fugindo. Deixou tudo para trás. Largou a escola e se arriscou a viver a vida da maneira que podia.