Inferno
O velho bêbado chegava tarde da noite em casa, grudava a bunda gorda no sofá, em frente a televisão, e ficava gritando, ordenando a minha mãe para trazer coisas a ele e tal. Só calava a boca quando bem entendia. A mãe, com toda a sua idiotisse, obedecia feito um cachorrinho. Acreditava que ele encontraria um trabalho. Hunf, que piada.
Meu irmão mais novo só enchia o saco. Nós dois estudávamos numa escola pública, daí íamos juntos pra lá, a pé. O moleque era muito chato, mesmo. Sempre que me via com uma guria, tratava de sair contado pra a mãe - e ela me xingava, por tudo, por qualquer motivo besta. Ela descontava em mim tudo o que sofria por causa do meu pai. Que maravilha.
Eu enfrentei o pai, disse umas verdades na cara dele. Tentou me bater, mas estava tão bêbado, que eu poderia derrubá-lo com apenas um soco. Não fiz nada. Tive nojo dele. A mãe ficou irritada, brava, indignada. Segundo ela, eu não podia discutir com o meu próprio pai. Que frasezinha do cu, hein? Vê se se enxerga. Ele é um humano imundo como todos os outros, e não vou tratar os defeitos dele de modo diferente só porque ele me pôs no mundo. Aliás, se ele fosse um bom pai, eu teria o tratado com mais respeito, mas eu não tinha nenhum motivo para isso.
Quando o Kai ia lá em casa, a gente entrava pela janela do meu quarto, para que ninguém o visse chegando. Eu sabia que ele era rico e que devia ter uma família bem melhor (ainda que ele dissesse que não), então tentei não mostrar a ele a porcaria com a qual eu tinha de conviver.
Fugi num sábado a noite, quando estava no primeiro ano do Ensino Médio. Tinha catorze anos na época, e nenhuma idéia na cabeça. Não sabia o que faria depois que deixasse a casa. Arrumei minha mala ouvindo gritos. O interessante é que o meu irmão simplesmente fingia que não ouvia nada daquilo - fingia que estava tudo bem. Não estava, pivete. E adivinha só? Estou abandonando o barco, você tá sozinho nessa. Boa sorte no inferno.
Passei os próximos dois anos na casa de amigos. Primeiro com o Eric e a avó dele, que me acolheu como um neto, mas eu estraguei tudo quando xinguei-a quando queria assistir tv e não lhe deixei sentar no sofá... Aí fui pra casa do Jake, que morava sozinho até então. Eu e eles levávamos algumas garotas pra lá, era divertido. Até que não demos conta de pagar o aluguel e fui morar com o Paul. Quando soube que o Kai tinha um apartamento espaçoso que ele tinha comprado, deixei de pagar aluguel e fui junto dele. Cometíamos alguns furtos e vandalismos.