Ibanez
Quando eu era mais nova, meus melhores amigos eram dois garotos, os vizinhos lá de casa. Nós brincávamos juntos todas as tardes. A gente andava de bicicleta pelo bairro e só voltava de noite, o que sempre nos encrencava com nossas mães. Não importava.
Mais tarde, quando já éramos adolescentes, os dois começaram a ter aulas de guitarra. Izzy (que tinha uma Les Paul Vintage Red) tinha quinze anos, e David (que recém havia comprado uma LP Nashville), uns dezessete. Eu não tinha nenhum outro amigo ou amiga a não ser aqueles dois. Eu era feliz com apenas a companhia deles, apesar de que, no fundo, eu sabia que não eram as melhores. Izzy fumava e Davis sempre arrumava briga por motivos inúteis, aqueles imbecis. Não posso falar muito, já que Dave acabou me metendo em roubo de carros.
Foi aí que as coisas começaram a desandar. Eu era uma pirralha de treze anos, e ainda faltava um ano para que Dave pudesse tirar a carteira de motorista. Mesmo assim, furtamos alguns carros e vendíamos as peças, até que a polícia descobriu, prendeu o meu amigo mais velho e, pra completar, ainda fomos expulsos de nossa escola. Nunca mais vi o Izzy e, apesar de ter esperado por muito tempo a volta de David, ele nunca voltou.
Não encontrei ninguém que prestasse na nova escola. Tudo era muito chato, as pessoas eram certinhas demais, os professores eram bonzinhos. Dá pra acreditar?! Larguei de mão dos estudos. Só passei por piedade. Para me divertir, eu jogava bolinha de papel, pichava as paredes, desenhava nas mesas e brigava com as vacas que eram as minhas colegas. Bando de patricinhas idiotas. Os garotos, então. Todos feios, crianções, cagões. Eu era mais macho do que qualquer um deles.
Até os meus pais, que eram separados, não queriam mais ficar comigo. Minha mãe me mandou ir morar com meu pai, já que eu era uma má influência à minha irmã mais nova. Foi um saco morar com o meu pai, e eu fugia seguidamente. E foi assim que a Ibanez, como me chamavam os velhos amigos, tornou-se solitária e mal vista pelos outros. Perdida num mundo que não lhe queria.